| Suas
letras que eram rudimentares, mas que acrescentavam
sempre que podia o brilho da sua inteligência
e desejo de instruir-se, no meio em que viveu,
não pudera elevar-se muito. Estava sempre
no trabalho do comércio e no meio a esse desempenho
social correspondia: gente boa, mas rude.
Quando
voltou para Campinas, onde deixara a noiva,
no intuito de casar-se; trazia o pecúlio regular,
suficiente para instalar-se e começar sua
vida.Era querido e seus companheiros de trabalho
o homenagearam.
A estada no Rio de Janeiro transformou-o em
ardente republicano. Companheiro de Quintino
Bocaiúva, Felício Santos, Porciúncula, Julio
Moura, Luis Querino e outros, distinguindo-se
pela atividade e ardor no auxilio desenvolvido
para as proclamações de “o Globo” e nas eleições gerais em que o Partido Republicano disputava
o seu lugar ao sol, desde 1870.
Por ocasião do manifesto democrático de 1870,
foi signatário em Campinas, para ficar junto
com velhos companheiros. O célebre documento
marcou o início das idéias e da propaganda
do sistema democrático no Brasil. Voltando
para Campinas por não ter desejado permanecer
na Corte, casou-se a 27 de novembro de 1880
com Maria do Belém Bueno Monteiro, nascida
em Castro (Paraná) em 9 de janeiro de 1858,
filha do Dr. Vicente Ferreira da Silva Bueno,
bacharel e juiz da Relação, e Maria Rosa da
Silva Bueno, sua sobrinha, descendentes de
Anhanguera e do Amador Bueno da Ribeira.
Em Campinas, antes que pudesse encontrar uma
nova diretriz para sua vida, fez parte da
diretoria do Clube Republicano, sendo sempre
elemento útil, companheiro de Campos Sales
e Francisco Glicério, dos quais permaneceu
fiel amigo até a morte.
Conseguiu capital paulista para montar serrarias
e bancos no Paraná, veio aventurar a sua vida
na terra dos pinheirais, trazendo consigo
a esposa e os quatro filhos mais velhos, um
dos quais perdeu algum tempo mais tarde.
Começou trabalhando arduamente no Araçatuba,
ao mesmo tempo em que recebeu por aqui seus
liames políticos com Vicente Machado, Correia
de Freitas e Emiliano Perneta, entre outros.
Ao ser proclamada a República estava trabalhando
na serraria, mas tinha o sentido preso às
coisas do Rio, e por pressentimento ou aviso
secreto, veio assistir a posse do governador
Cardoso Junior e a transformação da Província
em Estado.
Quando o governador Américo Lobo Leite Pereira
criou barreiras na divisa do Paraná com Santa
Catarina, Joaquim Monteiro foi chamado ao
Rio pelos membros do Governo Provisório em
1890, e convocado a assumir as rédeas do Estado,
mesmo interinamente. Não viu outra alternativa,
senão em aceitar. Governou poucas semanas.
O centro era contrário às barreiras porque
elas separam os elementos da federação; mas
também Joaquim Monteiro achou que a federação
seria antiga se houvesse intromissão impedindo
fonte de recursos considerada indispensável.
Prevaleceu o ponto de vista local. Quando
surgiu o golpe de três de novembro, com o
fechamento do Congresso, pelo Mal. Deodoro,
já houvera passado o governo ao Dr. Serzedelo
Correia. Opôs-se à medida de força. Caiu em
desgraça.
Foi Joaquim Monteiro dos homens mais úteis
ao Estado no seu tempo. Dada sua origem humilde
e seus princípios republicanos, não possuía
melindres no seu comportamento pessoal. Daí
ser presidente do Congresso inúmeras vezes,
camarista outras tantas e prefeito interino,
sem perder a modéstia. Quando o Dr. Generoso
Marques foi deposto em 29 de novembro de 1891,
seu nome estava incluído na Junta Governativa
que o sucedeu, juntamente com o cel. Roberto
Ferreira e Lamenha Lins.
Destacou-se também em outras atividades. Implantou
a agência local do Banco União e Indústria
de São Paulo, e como gozasse de prestígio
e crédito, encarregou-se de empréstimos para
o Estado do Paraná, que, ao tempo, era dos
mais pobres. Também se encarregou durante
o governo Santos Andrade, de pesquisar documentos
na Europa para a questão de limites com Santa
Catarina. Conseguiu-os e os entregou ao Conselheiro
Barradas, primeiro advogado dos interesses
do Paraná no célebre litígio.
Várias vezes provedor de Santa Casa de Misericórdia
de Curitiba e primeiro presidente da Junta
Comercial do Paraná, que foi fundador. Tudo
nele era coração, entusiasmo e valentia. Todos
os nobres ideais encontravam eco no seu generoso
peito. Assim, a abolição dos escravos e o
ideal republicano. Assim, as construções de
beneficência pública, como o Asilo N.Sra.
da Luz e outros de utilidade geral.
Quando se aproximou a revolução de 1893/94,
encontrava-se fora do Estado, em sua cidade
natal, para onde fora a negócios, de forma
que não se engolfou em ódios mesquinhos e
perseguições políticas de aldeia. Não tomou
parte na emulação de ódios profundos que separavam
as famílias curitibanas, embora fosse homem
de partido e nas suas convicções se mantivesse.
Se tivesse seguido constantemente o empirismo
de seu começo de vida, certamente teria terminado
rico e influente pelo dinheiro armazenado.
Sonhador, patriota, ativo, iniciou grandes
empreendimentos, tendo podido concluir muito
pouco por falta de conhecimentos técnicos
próprios e de ambiente, ainda que suas iniciativas
houvessem sido todas de grande valor e sobrado
mérito.
Tentou estabelecer em Curitiba uma indústria
de vidros, depois lançou as bases para um
fabrica de chapéus, mas ambas essas iniciativas
falharam, mais por falta de técnica do que
de capital. Foi idealizador também de uma
fábrica de fósforos, a primeira construída
no Brasil, mas esta iniciativa deixou-o em
mãos de ambiciosos de menos escrúpulos, que
ficaram senhores de todas as vantagens do
negócio.
Em 1907, a situação que parecia abusiva, da
chamada “Oligarquia dos Serafins”, determinou
um movimento contrário ao vice-presidente
Otoni Maciel e no Congresso Estadual a oposição
chegou a formar-se com a bancada governista
para declarar o impedimento de João Cândido
Ferreira, médico ilustre e homem de muito
nome e merecido prestígio, que houvera sido
eleito presidente do Estado.
Joaquim Monteiro foi adverti-lo lealmente,
dizendo-lhe que, se não tomasse providências,
em pouco tempo o movimento político conseqüente
ao de opinião, seria impossível de frear-se.
Não lhe deu credito João Cândido, embalado
como estava na confiança ao seu partido e
no prestígio de que dispunha. As forças coligadas,
desde que o movimento tivera início de um
projeto de impugnação constitucional de Caio
Machado, avolumaram-se. Alencar Guimarães
consentiu em dirigir esse movimento e, em
pouco tempo, efetivamente João Cândido estava
sem maioria no Congresso e foi obrigado a
renunciar ao ver que o próprio senador Xavier
da Silva o abandonara.
Esse movimento político inaugurou a aliança
entre republicanos e federalistas, até então
inimigos ferrenhos.
Joaquim Monteiro era homem vivo, ágil, alegre,
alourado e de olhos azuis. Na maturidade ficou
completamente calvo. Nada o intimidava, conforme
o demonstrou por ocasião da revolta dos sargentos
em 1908; mas possuía um coração magnânimo
e extrema bondade.
Faleceu em casa de seu dedicado genro, Artur
Martins Franco. Entre os minutos anteriores
ou posteriores à meia noite de 6 para 7 de
dezembro de 1917, em Curitiba. Deixou enorme
descendência. No Paraná, pelos lados Franco
e Carneiro; e fora do Estado pelos que lhe
deram continuidade ao nome, notadamente no
Rio de Janeiro.
Biografia:
História biográfica da república no Paraná,
de David Carneiro e Túlio Vargas, 1994.
Ilustração: Theodoro de Bona e Dulce Ozinski. |