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Provavelmente aprendeu primeiras letras em
Castro, vindo completar seus estudos propedêuticos
em Curitiba.
Disse a seu respeito João Cândido, que já
nas escolas primárias se constituía chefe
resoluto e persuasivo, dominando as reações
colegiais.
Devorava livros escolares interpretando com
facilidade os assuntos que estudava. Por isso
teria vencido classes mais adiantadas nas
estimulantes pugnas das sabatinas.
Entrou, em 1876, para a histórica Academia
de Direito de São Paulo, onde seu conterrâneo,
o conselheiro João da Silva Carrão deixara
nome como professor, e, como alunos, muitos
paranaenses ficaram famosos. Em 1881 recebia
o grau de bacharel em direito. Como estudante
foi o chefe das ruidosas agitações boêmias
a que São Paulo assistia com certo desenfado.
Deu rumo também a algumas das correntes liberais
de sua época. Adotou com ousadia o abolicionismo
radical e pelas proclamações liberais que
compunha, deixava entrever desde cedo, mas
com certa prudência, seu republicanismo.
Assim que se viu formado pensou em regressar
e servir seu Torrão natal, então ainda Província.
Como promotor público da Capital foi que iniciou
sua vida, porém já em 1882 era convidado pelo
Dr. Brasílio Machado para Secretario do seu
Governo.
Tendo se casado com Antônia Moreira Lima,
filha de Constancia Alves e de Antônio Moreira
Lima, decidiu aumentar os seus proventos materiais,
redobrando seu trabalho e ensinando filosofia
no Instituto Paranaense. O magistério lhe
foi ao mesmo tempo alimentação intelectual
e estímulo de grande proveito, deixando-lhe
erudição sedimentada. Como surgissem vagas
na magistratura, aceitou ser Juiz Municipal
de Ponta Grossa (1883), onde, da mesma forma
que em outros cargos ocupados, invariavelmente
brilhava ao subir à tribuna. Abandonou logo,
porém, a carreira de juiz, para, mesmo em
Ponta Grossa, abrir banca de advogado e dar
passos iniciais, mas firmes, como político.
Logo em 1884 jogou-se com afinco ao jornalismo,
onde aprendeu a lidar em 1877, na Faculdade
de Direito de São Paulo. Escreveu artigos
políticos no “19 de Dezembro” e no “A Província
do Paraná”.
Em 1886 decidiu-se finalmente a tentar a carreira
política. Candidatou-se à Assembléia Provincial
pelo Partido Liberal, de que era chefe incontestável
Jesuíno Marcondes.
Foi por essa forma, pouco além da idade da
emancipação, já líder indiscutível entre os
jovens da sua geração e, sobretudo aqueles
que podiam por seu próprio valor, constituir-se
como elite, em pedestal à sua liderança.
Quando Jesuíno Marcondes viu-o
entrosado no Partido Liberal não escondeu
sua satisfação, declarando: “Eis aqui a esperança
do partido”. Não tardou, porém, em desiludir
os conservadores monarquistas, ao mostrar
que seus objetivos não cifravam à manutenção
da situação existente.
A 22 de agosto de 1888 punha
como problema do partido a aspiração inadiável
de completa descentralização, ao mesmo tempo
administrativa e política das Províncias.
Logo depois, na sessão de 23 de setembro afirmou
publicamente suas convicções republicanas.
Com isso fortaleceu a ação do diminuto grupo
de republicanos concentrados em torno do semanário
“A República” e do Clube Republicano. Em conferência
pública, no Teatro S. Teodoro, explanou, larga
e vibrantemente, os ideais dos novos tempos,
sendo aclamadíssimo (R. Martins, Terra e Gente
do Paraná). Em 1888 tentou a reeleição, desta
vez pelo Partido Republicano, sem sucesso.
Depois de 15 de novembro de
1889 a tendência foi a sentir-se levado pelo
torvelinho ascendente. Chefe da Polícia do
Governo Provisório, logo foi, embora por muito
pouco tempo, presidente da Câmara Municipal
de Curitiba, daí passando a Superintendência
da Instrução Pública do Estado.
O fato de haver Vicente Machado
ocupado tão raro brilho tantas e tão variadas
posições, mostrando em todas elas de forma
inequívoca talento inexcedível e capacidade
de trabalho assombrosa, constituiu eloqüente
demonstração de que possuía qualidades intrínsecas
de um líder verdadeiro. Essa foi razão pela
qual o escolheram relator geral da Constituinte
do Estado do Paraná, de 07 de abril de 1892,
a segunda sob o novo regime.
Liderou a elaboração da Carta
Constitucional Republicana, através de uma
Comissão ainda integrada por Arthur de Abreu,
Alencar Guimarães, Albino Silva e Victor do
Amaral.
Como governador e constituinte,
superintendeu o ensino, organizou a força
pública e estruturou a justiça, deixando em
todos esses departamentos da administração
o cunho marcante da sua personalidade.
A 18 de abril de 1893, quando
já no Sul as sombras revolucionárias escureciam
os horizontes da Pátria, assumiu como vice-governador
do Estado, a responsabilidade do governo,
em face da licença concedida a Xavier da Silva,
por um ano, para tratamento de saúde.
Invadido o Paraná, em dezembro,
já havia multiplicado seus esforços para dar
eficiência à defesa, conforme a moção votada
pelo Poder Legislativo de 30 de novembro de
1893. Às portas do Estado, a revolução federalista
ameaçava as instituições.
Não seria, porém, possível a
defesa sem apoio eficaz e decidido do Comando
do 5º Distrito Militar a cuja frente estava
o gal. Pego Junior.
Transferiu a capital para Castro.
Mesmo assim não lhe foi possível manter o
governo legal, dados os precários meios de
defesa. Deixou o Estado juntamente com o comandante
do distrito a 18 de janeiro de 1894. O governo
legal ficou suspenso desde essa data até 12
de abril daquele ano, data em que na cidade
de Castro reassumiu o poder, transferindo-se
para Curitiba a 05 de maio, quando, sem resistência,
os revolucionários abandonavam o Estado.
Em mensagem ao Legislativo disse:
“tudo fiz quanto estava ao meu alcance para
livrar meu Estado da invasão, o que infelizmente
não pude lograr, pelo desdobramento sinistro
que aos acontecimentos imprimiu a fatalidade”.
Quando no Senador disseram que havia abandonado
seu posto declarou: “Eu não havia de ficar
sereno na posição a que me alcançava o voto
popular, quando não tinha elementos para garantir
minha autoridade, nem suficiente força para
fazê-la respeitar. Se permanecesse, o sacrifício
teria sido inútil, quando à minha frente corria
o comandante do Distrito, apavorado. Não havia
de ser com duas ordenanças e um pequeno grupo
de amigos fiéis, mas assim mesmo desarmados,
que se poderia resistir à invasão. Procedi
como devia...”.
Quinze dias depois de sua chegada
a Curitiba, propalou-se a notícia dos fuzilamentos
em Paranaguá e na Serra. Levantou-se torva
acusação contra o governo local.
Vicente Machado publicou enérgico
manifesto afastando de seus ombros a responsabilidade
de qualquer participação, protestando contra
atos do representante militar do governo federal
e seus asseclas sanguinários.
“A
excelência do regime republicano está em possuir
natural remédio a todos os males. Meus patrícios
que comungaram com a revolta podem estar tranqüilos
quanto a perseguições e violências por parte
das autoridades do Estado. Então só se sentirão
dignificados pela aplicação da lei. Dos efeitos
desta não devem temer quantos por si tiveram
a justiça”.
Várias vezes, no Congresso do
Estado (30 de maio de 1895) e ao Senado (outubro
de 1897) tomou a palavra para explicar e defender-se
das acusações que lhe foram feitas.
Foi notável quando respondeu
ao Barão do Ladário, ex-ministro e último
Secretario da Marinha do Império, ferido em
15 de novembro de 1889. Teve tal sinceridade
em suas palavras que o Barão foi ao seu lugar
apertar-lhe a mão, procedendo do mesmo modo
o marechal Almeida Barreto.
Deixara o governo do Estado
a 14 de junho de 1894 para fazer sua campanha
eleitoral, candidato a Senador, que era. Pouco
depois perdia sua primeira esposa. Apesar
disso continuou sua luta e foi eleito, em
janeiro de 1895, em substituição a Generoso
Marques.
Grande lutador e realmente incrível.
Não foi Senador mais cedo porque teve que
esperar algum tempo até atingir a idade constitucional
(35 anos) para enfrentar a Câmara Alta.
Em franca oposição a Prudente
de Morais, que reagia contra os partidários
do Marechal Floriano, seus concidadãos pasmaram
ante a energia demonstrada em seu combate
e o talento com que desenvolvia sua argumentação;
tal predomínio exerceu no Senado onde outras
figuras nacionais de incontestável valor pontificaram,
seu patriotismo por tal modo ficou evidenciado,
que Campos Sales, ao assumir a Suprema Magistratura
do país, chamou-o para confiar-lhe a liderança
da Câmara Alta.
Vicente Machado havia combatido
a candidatura de Campos Sales, prestigiando
a de Lauro Sodré. Campos Sales fizera pressão
contra o chefe republicano paranaense através
de Prudente de Morais, este havendo mandado
um navio de guerra a Paranaguá para efeito
psicológico, que, aliás, foi contraproducente.
Com tudo isso a vitória de Vicente Machado
e a sua brilhante oposição não deixaram o
grande presidente paulista ressentido.
Já a esse tempo havia contraído
novas núpcias com Helena Loyola, filha do
coronel Joaquim Antonio de Loyola e de sua
esposa Guilhermina Santos de Loyola.
Sem competidor, foi eleito presidente
do Estado do Paraná em 1903, assumindo o poder
a 25 de fevereiro de 1904, apesar da ameaça
de dissidência no Partido Republicano.
É de sua autoria a lei de nº
449, equiparando os impostos de exportação
de erva mate bruta aos da erva mate beneficiada.
Levantou-se grande celeuma em torno dessa
legislação, mas com o tempo se comprovou o
acerto de medidas, embora o vozerio dos maldizentes.
Numa das suas mensagens do Congresso Legislativo,
declarou:
“Não pode ser governo e nem abarca as responsabilidades
da administração pública, quem se sentir esmagado
pelo peso das suspeitas de que possa claudicar
contra a honorabilidade administrativa, e
que, pondo a mão na consciência, não possa
vencê-las”.
Já a essa altura de sua vida
sentia os terríveis efeitos da traiçoeira
enfermidade que havia de prostrá-lo.
Ainda foi a Europa em1906 tentar
remédios, mas provavelmente os recursos experimentados
teriam diminuído sua resistência. Por lá ficou
de abril a dezembro de 1906. Mas de volta
estava condenado. Tinha apenas 46 anos e 7
meses, quando faleceu a 03 de março de 1907.
Biografia:
História biográfica da república no Paraná,
de David Carneiro e Túlio Vargas, 1994.
Foto: Galeria do Salão dos Governantes do
Palácio Iguaçu, reproduzida pro Simone Fabiano.
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